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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

CONFISSÕES DE UM FILÓSOFO


- sobre a velhice -

Conhecemos-nos em uma tarde de outono, onde as folhas que caiam das arvores eram o anuncio de um inverno rigoroso que se aproximava. Sozinha e triste lá estava ela. Outono era a estação que transbordava de seu olhar. O fim de uma vida pode ser tão triste quanto à de uma flor que morre seca por falta de água em um jardim mal cuidado.
Os detalhes de suas palavras eram tão verdadeiros quanto ao céu nublado que prenuncia uma tempestade. Lá estava ela. Em um banco daquela praça. Lia o seu jornal. Sentei-me ao seu lado. Olhou-me profundamente nos olhos. Senti meu coração se rasgando pelas dores não pronunciadas daquela alma sofrida.
Contou-me de sua vida. Falou longamente sobre sua juventude. Dos sonhos realizados e daqueles esquecidos pelo tempo. Sim, ela teve família. Hoje, não mais. O que não se cuida com amor acaba sendo esquecido pelo tempo.
Naquela tarde descobri o que minha razão nunca poderia ensinar-me. A velhice pode ser tão dolorida como a dor da perda de alguém querido. Hoje minha mais nova amiga recordava as suas manhãs de vigor e sonhos. Tudo o que sonhou um dia hoje se encontrava sepultado em um coração esquecido por quem um dia se dizia amado.
Certo estava Michel de Montaigne quando disse: ”A velhice faz-nos mais rugas no espírito do que na cara”. Minha amiga não tinha tantas rugas na face. Mas seu coração era a dor aberta, em feridas que nunca poderão ser cicatrizadas pelo tempo.
Hoje ela vivia só. Foi abandonada em uma Casa de Repouso para pessoas que estão no processo de esquecimento familiar. Teve muitos filhos e netos. Recordou-se com lágrimas do primeiro sorriso de seus filhos. Das noites mal dormidas pelos resfriados que as crianças pegaram andando na chuva. Teve dias que deixou de se alimentar para que seus filhos tivessem o que comer. Sua dor era uma mistura de saudade e sofrimento.
Ao fim daquela tarde, perguntei-lhe se não sentia mágoa por estar naquela situação. Com um leve sorriso entre os lábios olhou-me profundamente nos olhos e me disse: Quando amamos verdadeiramente, a saudade de um passado de lutas é apenas uma maneira de mostramos que valeu ter lutado para fazer outras pessoas felizes.
Não concordei! Entre lágrimas abraçou-me e disse: Ser esquecido é a pior dor que até hoje senti em toda minha vida. Sinto falta de quem me amou, mas continuo amando cada filho. Queria apenas cuidar desta doença que hoje eles têm, e que se chama: desumanidade.
Assim nos despedimos. Na certeza de que a vida não é tão doce e bela para todas as pessoas. Retornando para minha casa recordei-me de Jean Jacques Rousseau: “Quem viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu na vida”.

Flávio Sobreiro Filósofo pela PUCCAMP, Teólogo pela FACAPA, Estudante de Filosofia Clínica, Poeta, Escritor e colaborador do Blog: SOCIOLOGIA NO MUNDO.
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