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terça-feira, 12 de outubro de 2010

UMA CRÔNICA SOBRE A MORTE

MORRA, SEU CRETINO - Por Marco Aurélio



Estava eu perdendo tempo na itnernet quando me deparei com uma homenagem que algumas pessoas fizeram a alguém que morreu, era jovem, por sinal. Fiquei olhando a foto do falecido por algum tempo, calado, apenas olhando. Creio que todos já passaram pela experiência de ver a foto de uma pessoa já falecida e não acreditar que ela morreu, pensando que a pessoa não fosse passível de morte. Meu sentimento ao ver a foto do jovem não foi o escrito nas linhas acima, afinal, eu não conheço o falecido que foi homenageado neste episódio e não fico de luto por quem não conheço. Sim, o luto foi banalizado. Hoje qualquer um está de luto pela morte de qualquer pessoa, mesmo que a conhecesse apenas de vista. Só quem já passou por um luto de verdade sabe o quão ridículo é ficar de luto por alguém que não se conhece ou apenas passa-se a vista.
Ver a foto do garoto que morreu fez-me perceber que não se fala mais na morte, a vida é vivida como se não houvesse morte. Quando eu ainda era uma criança, pensava mais na morte, não na minha morte, mas na morte de outras pessoas. Lembro de estar na 2º ou 3º série do Ensino Fundamental... Eu olhava minha sala de aula, com algo perto de 30 alunos, e pensava: “Quando será, e como será, quando todos aqui nesta sala estiverem mortos? Como eles vão morrer?”. Não deve ser muito comum uma criança pensar sobre a morte. Cresci e continuei com a mesma ideia. Bastava estar presente em qualquer lugar cheio de gente que o mesmo pensamento vinha à mente: “Quando será que todos os presentes estarão mortos? E como morrerão?”.
Já passei pela infelicidade de perder meu pai, meus avós paternos, avós maternos e tios, que eu me lembre. Confesso que, de longe, a dor mais dolorida foi a perda de meu pai. Pude sentir na alma o que é realmente ficar de luto. Meu pai estava em casa, preocupado com uma cirurgia que seria feita em sua barriga. Ainda me lembro das suas palavras: “Eu to com um meeeeedo dessa cirurgia!”. Foi na mesa da cozinha que ele me disse. Eu não estava muito preocupado, afinal, meu pai já havia passado por inúmeras cirurgias na barriga num lapso temporal pequeno. Depois de tantas cirurgias, disto ele não morreria. Engraçado, num dia eu estava conversando com meu pai e, dois ou três dias depois ele era internado na U.T.I. Quando alguém dá a notícia da morte de seu pai, é como levar um soco na “boca do estômago”. É uma dor inenarrável. Falta ar e a visão fica embaçada. Ainda me lembro de alguns que me diziam que um dia a dor passaria. Após 4 anos a dor continua a mesma, apenas me habituei com ela.
Escrevi o parágrafo acima para que o leitor entenda que a morte nos ronda a todo o momento. Ela quer nos levar até quando estamos dormindo. Alguns dizem que seu desejo é morrer dormindo. Morrer dormindo uma ova! Quero morrer bem acordado, consciente do que está acontecendo e de que vou deixar este mundo. Desta maneira, a possibilidade de dizer adeus às pessoas queridas é bem maior. Que sem graça deve ser deitar numa cama e simplesmente não acordar. Posso ser mais romântico com minha morte: Morrer nos braços da mulher amada dizendo a ela que o melhor de minha vida foi viver ao lado da mulher que mais amei, e que esperarei até o momento de nos reencontrarmos.
Mas porque deixaram de pensar na morte? O mundo virou todo materialista? E o transcendental, o além da vida, onde foram parar?
Tenho pouco estudo, por isso, não sei se posso me considerar um Espírita. Mas acredito e sempre acreditei na vida após a morte. A filosofia espírita me esclareceu uma dúvida: “Qual a razão de estudar e trabalhar tanto se vamos morrer?”. O que descobri é que não ficaremos tão mortos quando morrermos. O que fui encontrando me confortou – mas nem por isso deixei de questionar e melhorar a resposta que encontrei – e me fez entender que a razão de estudar e trabalhar tanto é que ainda estudaremos e trabalharemos ainda mais. Por isso, quanto maior for nosso esforço aqui nesta terra, menor será o esforço na vida que teremos depois da morte. E se não pensamos na morte, se não pensam na morte, não poderão ter uma resposta para a questão acima. Sem uma resposta, uma resposta qualquer, a vida fica sem sentido, depressiva. (Não me venha com seus “argumentos científicos”. Não quero ciência neste texto. Não quero provar nada e não quero que provem ou refutem o que escrevo. Deixe o Deus de nosso tempo, a ciência, descansar).
Depois de ver a homenagem ao jovem do primeiro parágrafo, vi que a família e os amigos do mesmo escreveram alguma coisa na homenagem, e fiquei imaginando como seria minha casa e minha roda de amigos sem mim. Estranho, no mínimo! Lembro do meu quarto bagunçado, onde há livros e roupas espalhadas, minha cama, que me aguarda pacientemente todas as noites. Como seria meu quarto sem mim? O quintal de casa, onde, às vezes, jogo bola com meu irmão e com os amigos, como ficará? A mesa do bar, onde me reúno com os amigos para darmos risadas, como ficará? Alguém vai ocupar o meu lugar vazio à mesa? E olhar para o que mais te faz lembrar de mim e saber que eu nunca mais vou aparecer, como será? Espero que demore muito tempo até que eu responda estas indagações. Ou como diria o professor Júlio César, eu não vou respondê-las.
Marco Aurélio é estudante do 4º termo
de Direito
E a lembrança daqueles que morrem, como é? Nos habituamos a construir a imagem de santo do falecido, isto não é correto. Devemos lembrar das pessoas exatamente como elas foram, não importando se foram anjos ou demônios. Lembrar dos erros delas para não cometermos os mesmos erros. A morte é a professora da vida. Se você já passou pela experiência de ver uma pessoa querida morrer, com certeza, parou e pensou um pouquinho na vida, na própria vida, encontrou seus defeitos e aquilo que precisa melhorar. Provavelmente esqueceu tudo depois de três dias, mas tudo bem. É a morte te ensinando a aprender com ela. Afinal, quando você morrer, como gostara de ser lembrado?
Se o ser humano tivesse consciência de sua morte, uma das raras certezas pela qual eu colocaria a mão no fogo, todos seríamos um pouquinho melhor, acredito. Até as figuras mais desprezíveis da história, acredito eu, gostariam de ter deixado uma reputação melhorzinha. Sei que o que vou deixar quando morrer não será uma contribuição significativa para as pessoas, mas empenho-me o máximo que posso tentando deixar exemplos de mim mesmo. Mesmo não sendo um santo em vida, é possível deixar uma contribuição para quem está vivo. Eu mesmo não sou a pessoa que desejava ser, contudo, continuo insistindo em mudar meu caráter, mudar meus hábitos, mudar minha história. Afinal, como disse Rocky Balboa: “Não se lembrarão de você. Se lembrarão da sua reputação”.
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