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domingo, 1 de dezembro de 2013

"SOCIEDADE ATUAL DIFICULTA A VIVÊNCIA DO LUTO", REVELA PESQUISADOR DA USP

 
A entrevista deste mês traz as experiências e os resultados da pesquisa de mestrado (realizado na Universidade de São Paulo - USP), por Rodrigo Feliciano Caputo em três aldeias dos remanescentes Bororos, no Mato Grosso. Caputo tem formação inicial em Psicologia e na entrevista cedida ao SNM relata seus sentimentos e percepções sobre as visitas realizadas  às aldeias e, fala sobre sua experiência na elaboração da dissertação.
 
SNM - Caputo, em que consistiu sua pesquisa de mestrado?
Caputo - O  estudo que realizei procurou contribuir para o aprofundamento conceitual e metodológico, através da análise comparativa entre dois grupos humanos contemporâneos que apresentam características histórico-culturais específicas: os moradores da cidade de Lins-SP (“linenses”) e os remanescentes “bororos” que vivem em três aldeias no estado de Mato Grosso.
 
SNM - Em seu estudo, o que pretendia comparando essas duas realidades diferentes (os linenses e os bororos)?
Caputo - Na realidade, minha intenção era tentar compreender, por meio de revisão da literatura existente e exame de fontes documentais, como esses grupos lidam com a morte. Para tanto, foi necessário entrar em contato com suas estruturas e dinâmica social, sua história de ocupação e transformação dos territórios por eles habitados, seus mitos fundadores, suas instituições, práticas, discursos, técnicas e símbolos.
 
SNM - Por que você quis pesquisar esse assunto?
Caputo - Boa parte (senão todos) os fundamentos culturais de uma sociedade convergem nas suas prescrições técnicas e simbólicas sobre como lidar com a morte, de modo a integrá-la na realidade  social e garantir a continuidade da vida comunitária,  estabelecendo códigos de conduta, modulando relações de parentesco, instituindo papéis profissionais etc. Então, essas diferentes "maneiras" de lidar com a morte, chama a atenção (e é de  grande interesse) da Psicologia Social, que vem sendo estudados cada vem mais.
 
SNM - O que mais te chamou a atenção sobre a pesquisa?
Caputo - O que me impressionou, primeiramente, foi que, apesar do intenso processo de  aculturação dos “bororos”, este grupo ainda guarda diferenças marcantes em relação aos “linenses”, em relação ao modo como lidam com a morte. Entre os linenses, por exemplo, a morte  é mantida à distância, no sentido de que as tarefas funerárias são "terceirizadas" a profissionais e instituições específicas. 
O luto é vivenciado só ou junto à família nuclear e a expressão da dor costuma ser abreviada. Já os bororos geralmente guardam proximidade dos indivíduos adoentados e moribundos, bem como de todo o ritual funerário. A dor é expressa e o luto é vivenciado em comunidade. Por outro lado, em ambos os grupos confirma-se que o conjunto de técnicas e símbolos de lida com a morte representa um importante organizador psicossocial, pois orienta e auxilia as pessoas no enfrentamento individual e coletivo da morte, favorecendo na elaboração dos impactos psíquicos, na reorganização dos papéis e dos vínculos sociais.
 
SNM - Como foi ficar esses dias na aldeia?

Caputo - Foi desafiador e fascinante me integrar no grupo dos Bororos, já que não fazem parte do meu cotidiano. Porém, a inserção ocorreu em um contexto atenuador dos impactos gerados pelo ingresso de um forasteiro no grupo. O ingresso no grupo Bororo ocorreu através de um Projeto de Ação Voluntária feito entre o Centro Católico Salesiano Auxilium (UNISALESIANO), de Lins-SP, local em que trabalho e as aldeias de Meruri (índios Bororo) e Sangradouro (índios Bororo e Xavante). O projeto ocorreu de 11 a 19 de julho de 2012 Nesta ação de voluntariado, eu fui designado para compor o grupo que seguiria para Meruri. Os quatro primeiros dias foram planejados pelos habitantes de Meruri, os quais promoveram algumas danças, rituais, levaram-nos para passeios e visitas acompanhadas pela aldeia, festas, atividades esportivas mesclados com rodas de conversas e palestras realizadas por lideranças Bororo (diretor da escola, cacique, responsáveis pelo Museu Comunitário e Centro de Cultura Bororo. Pe. Rodolfo Lunkenbein); bem como por dois religiosos que estão há décadas na aldeia.
 
SNM - profissionalmente você atua de que modo hoje?
Caputo - Hoje sou psicólogo clínico e atuo com atendimento na cidade de Lins e região. Sou professor universitário e consultor em gestão de pessoas. Desenvolvo pesquisas de mestrado em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo - USP.
 
SNM - Essa não foi sua primeira experiência com o tema da morte. Você desenvolveu projetos na sua área com pacientes soropositivos. Conta para a gente como foi esse projeto.
Caputo - Essa experiência se deu em 2006. O trabalho consistiu em formar um grupo de apoio aos soropositivos e seus familiares frequentadores da ONG MOVECA (Movimento Vestindo a Camisa), da cidade de Penápolis-SP, com o objetivos de construir um vínculo com os integrantes desta, estabelecendo, portanto, uma relação de alteridade. No período em que atendi na Ong, um dos integrantes do grupo faleceu, a partir de então passei a investigar as questões relativas à morte e às vivências do luto.
 
SNM - Como é para você trabalhar com pacientes nessa condição?
Caputo - Atendo muitas pessoas que estão vivenciando o luto de entes queridos ou coisas que apreciavam muito, porém vejo que nossa sociedade não facilita a esta vivência. Este é um tema proibido, já que após o funeral, cada vez menos se tolera o choro e o pesar, assim o luto que outrora era uma reação natural e esperada diante de uma perda significativa, passou a ser patologizado e medicalizado. Deste modo, é muito satisfatório poder facilitar a elaboração do luto de pessoas que além de sofrerem as suas perdas, sofrem por não poderem expressar suas dores, suas angústias e medos.
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