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sexta-feira, 10 de julho de 2015

AFINAL, O PAPA ACEITOU OU NÃO O PRESENTE DE EVO MORALES?

UM TEXTO SEM CONTEXTO VIRA UM PRETEXTO...

Por Julio César Gonçalves
 
Desde pequeno ouvi dizer que a palavra tem poder. Desde então, cresci acreditando que a palavra possui uma força superior transcendental, benigna ou maligna, mas, não somente; também há outro tipo de força (do qual trata este post). Me recordo que as mulheres da minha casa (avós, tias e tia-avós) não gostavam que nós falássemos da possibilidade de nossa própria morte, ou de acidentes (às vezes mandava a gente bater na boca 3 vezes antes de falar). Também, até hoje minha avó evita pronunciar a palavra "C.Â.N.C.E.R", por medo da própria doença. Ela diz: "aquela doença ruim", evitando atrair a maldição da palavra. Mas a reflexão que venho propor hoje, não trata desse poder sobrenatural da palavra, mas antes, de outro tipo de poder: o poder ideológico que ela carrega consigo.
Nenhuma palavra é neutra ou destituída de significados, justamente porque uma palavra sem sentido não tem serventia. A palavra está a serviço da comunicação humana. Por esse motivo, sempre que uma palavra é escrita, ou dita, ela traz consigo uma ideia ou um conjunto de ideias (ideologia) que muitas vezes não está explícita, mas discreta, escondida na própria palavra. Outras vezes, a carga de significados que a palavra porta consigo é tão forte que nem cabe nela própria...

O fato é que, num caso ou noutro, a palavra por si só de nada valeria se não existisse aqueles que a dizem ou a escrevem (conferindo-a um sentido), e àqueles que vão resignificá-la ao ler o que foi escrito ou escutar o que foi dito.
O ressignificar também não pode ser neutro ou destituído de intenção, posto que vem de alguém, de uma cultura, de um padrão linguístico e emocional. E é exatamente por isso que a linguagem carrega suas ambiguidades na comunicação.
O que dizer então, das palavras que não são ditas nem escritas? Das palavras sob a forma de  expressões corporais?
Será o Papa um comunista?
Hoje, fiquei incomodado com os vários posts que li sobre a notícia do polêmico presente de Evo Morales ao Papa. Vi postagens bastantes divergentes e comentários prá lá de extremistas e fundamentalistas, e outras babaquices acerca da postura do Papa... 
Assisti ao vídeo do momento em que Sua Santidade recebe os presentes das mãos de Evo Morales... Bem, penso que não podemos apenas julgar os fatos pelo que se vê, afinal, nem sempre aquilo que se vemos, de fato é, realmente. Em nenhuma das postagens e comentários que li, levou em consideração o lugar de onde está o Papa e o que ele estava fazendo naquele momento. Ora, se faz necessário entendermos o contexto em que as palavras foram ditas (ou não ditas - no caso de expressões fisionômicas), entendermos o porquê dos gestos e ações, para só então tirarmos algumas conclusões. Na ocasião, Morales presenteou o Papa com uma imagem de Cristo crucificado sobre uma foice e um martelo (símbolo do comunismo); entretanto, este símbolo seria uma reprodução do objeto criado pelo padre jesuíta espanhol Espinal, morto em 1980 por paramilitares contrários às suas lutas sociais, por quem o Papa rezou até pouco antes do polêmico encontro.
É evidente que Evo Morales lhe entregou presentes comunistas, uma vez que acredita e vive esta ideologia. Mas daí a colocar o Papa como adepto dessa corrente de pensamento com base na atitude de aceitar um presente-símbolo do comunismo, acho um pouco exagerado...
A primeira pergunta que me vem à mente (e encerro essa reflexão com possíveis respostas a ela)  é: Francisco aceitou mesmo o crucifixo comunista? Penso que pouco provável... Pouco provável por três motivos: primeiro porque o comunismo foi responsável por uma das maiores perseguições contra o catolicismo na década de 1920; segundo  pelas expressões faciais e corporais do Papa (demonstrou, ao menos um desconforto com aquela situação); e, pouco provável também, pelas parcas palavras que saíram de sua boca, num áudio em que quase nada dá para entender: No está bien eso”  ("Isto não está bem"). "A comparação possível é tentar unir a cruz de Davi com uma suástica nazista e presenteá-la a um rabino" (Igor Gielow - Diretor da Sucursal da Folha de S. Paulo em Brasília).
Gosto de acreditar que naquele momento ele estava recebendo das mãos de Morales, palavras esculpidas em madeira, de um padre torturado e morto por lutar por um ideal de justiça...
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