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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

ALZHEIMER


Por Fernando Luiz Teixeira

Números expressivos oferecidos pelo IBGE, no último censo, atestam que a população brasileira está envelhecendo. Sublinham que, ao contrário de décadas anteriores, cada vez mais homens e mulheres têm chegado aos setenta, oitenta anos. As porcentagens mostram-se louváveis. Preocupante mesmo são as condições para atender a esse segmento. Volta e meia, a infraestrutura das metrópoles mais exclui que inclui. O descaso predomina nas ruas. Índices de violência doméstica também saltam aos olhos. E os asilos se tornam espaços privilegiados para que filhos e netos possam, enfim, esquecê-los. Entre os impasses enfrentados, talvez o maior ainda seja a insensibilidade. Há um punhado de piadas que tripudiam os dilemas vivenciados na senectude. A sexualidade quase sempre é abordada a partir de um tom de deboche. Isso sem contar que parte expressiva dos jovens parece menosprezar a capacidade intelectual  do idoso. Por pressa ou pura intolerância, demonstram pouca paciência e atropelam seu tempo para desenvolver certas atividades. Tempo esse que se encontra comprometido em razão das limitações do organismo impostas pela própria idade. 
Os problemas tomam proporções bem mais sérias quando o idoso, pelo fato de não ter conseguido garantir certa estabilidade durante a juventude, se vê à mercê dos familiares. Para se manter, precisa ainda exercer alguma atividade remunerada. O mercado de trabalho, no entanto, ocupa-se em deixar profissionais mais experientes de lado. São praticamente escassas as possibilidades de emprego para aqueles com mais de cinquenta anos.
Lamentáveis são também os casos em que muitos parentes se apropriam da aposentadoria de pais e avós para o benefício próprio. A fim de contornar esse impasse, os atuais processos de interdição revelam-se bastante criteriosos. Ao final de cada ano, devem-se reunir os comprovantes dos gastos do aposentado e encaminhá-los ao advogado para prestação de contas. Tal prática poderá assegurar ao idoso que o dinheiro seja direcionado às suas necessidades básicas, como alimentação, vestuário, higiene e saúde. 
Contudo, o que se vê com certa regularidade é o abandono. Na luta pela sobrevivência, grande parte dos filhos se dedica às carreiras promissoras. E deixam para trás aqueles que mais torceram por eles. Precisam garantir o sustento e a realização profissional. Não há mais tempo para conversa fiada. Vá ver televisão, tiozinho! Meu Deus! O senhor emporcalhou toda a mesa de jantar! Tenho mais o que fazer! Não posso ficar limpando isso toda hora! Ai, não! Gripado de novo! Logo agora!
Sabe-se que o idoso apresenta uma série de problemas que corroboram sua fragilidade biológica. Encontra-se menos protegido contra doenças físicas e psíquicas. Sua visão mostra-se, gradativamente, comprometida. A capacidade de ouvir também. O paladar e o olfato sofrem alterações. O raciocínio apresenta-se mais lento. E a certeza da morte iminente traz quadros depressivos e angustiantes. É o momento de avaliar a própria vida, as escolhas feitas durante a travessia, os momentos em que, muitas vezes, se anulou para satisfazer a vontade alheia. Talvez o maior exemplo acerca das dificuldades de superar todos esses percalços, eu tenha encontrado na minha própria casa. 
Sou professor universitário e cuido, há cinco anos, de minha mãe. Ela chegou aos setenta anos e foi diagnosticada, ainda sem total precisão, com Alzheimer. De lá pra cá, muita coisa mudou na minha casa e, consequentemente, na minha vida. A gente mal fazia ideia de que sua “mania de limpeza”, de que o fato de lavar as mãos cinco, seis, sete vezes, revelar-se-ia mais tarde como o início de um caminho de muito sofrimento.
E a partir daquele momento, eu acompanhei uma transformação nada fácil para qualquer filho. Ela pouco a pouco se anularia, apagaria muita coisa da memória e se transformaria em uma pessoa diferente e distante. O amor permanece, mas permeado de saudade por tudo aquilo que ela havia sido. As mudanças chamam a atenção. Primeiro, o portador de Alzheimer se esquece de palavras que utilizava no cotidiano, como “leite”, “laranja”, “costura”. Os lapsos se tornam constantes. Outras vezes, trocam verbos. Aí é comum ouvi-los dizer que “comiam” um cafezinho ou “bebiam” um gostoso prato de arroz e feijão. E quando tomam consciência de que não conseguem se comunicar direito, sentem-se envergonhados, acuados, e preferem se isolar. Assim, é comum, em festas de família, vê-los correr para um canto ou outro. O silêncio parece menos doloroso. O ato de ter de interagir com o outro se torna um grande peso, um fardo muito difícil de carregar.
A escrita sofre oscilações. A leitura e os cálculos matemáticos também. E pouco a pouco são apagadas informações básicas como o nome do país onde mora, a novela preferida ou a canção que mais agradava.
Mas ainda assim, as características do que foram no passado se mantêm. Por isso é comum vê-los perguntar dos filhos, embora não mais se recordem do nome de nenhum um deles. Recebem os netinhos com um abraço forte e apertado. Fazem questão de presentear um e outro com um mimo qualquer. E vez por outra aquecem a cabeça no nosso colo e nos agradecem por não ter saído naquela noite chuvosa.
Entretanto, nem tudo é um mar de rosas. E nem um poema apaixonado. Com o passar dos anos, a dependência aumenta, a coordenação motora não é mais a mesma. Intensificam-se as dificuldades de trocar de roupa. Requer ajuda no banho. Levantam-se nas madrugadas. Atiram comida na parede. Fingem ter ingerido o remédio e o escondem debaixo da cama. Choram com medo de ir ao médico. E os cuidadores, às vezes, ficam irritados. Mostram-se hostis. Deitam-se magoados. Não com as pessoas cuidadas, mas com a vida e os rumos desconcertantes das tristes histórias que estão testemunhando e que, por mais que não queiram enxergar, sabem como terminam. Dos familiares mais espirituosos que conheço sempre garantiram que logo conseguem se recompor. Voltam, à noite, para cobrir os avós, e se reconfortam com a oportunidade de tê-los ao lado, de poder ajudá-los, de tentar fazer algo de bom – mesmo em meio a tantos tropeços e falta de informação.
E as tentativas para reverter o quadro são muitas. Aqui em casa nos dividimos e nos desdobramos para oferecer uma boa qualidade de vida pra mãe. Caminhadas, conversas diárias, estímulos para enumerar as coisas (ufa! ontem contamos até trinta!)... Vale tudo! 
Decerto muitos leitores se identificaram um pouco com isso. Sabem que, embora persista um discurso virtuoso a respeito da melhor idade, a realidade, na maioria das vezes, revela-se bastante ingrata. A rigor, é importante que o cuidador esteja sempre presente para que o idoso não seja ignorado em lojas, feiras ou consultórios. 
Possivelmente a raiz de todos esses transtornos esteja ainda no preconceito. E o preconceito, via de regra, reflete a ignorância, a concepção de que a velhice é um período infértil e improdutivo. Talvez a resposta mais apropriada para tal questão possa ser encontrada nos estudos do geriatra Luis Eugênio Garcez Leme. Para ele, a melhor forma de combate ao preconceito é o exercício sistemático do RESPEITO. Exercício esse que efetiva por meio da atenção, do trato individualizado, da capacidade de ouvir o outro e, sobretudo, de partilhar suas experiências, seus conselhos, suas histórias. Enfim, suas vidas!  


FERNANDO TEIXEIRA LUIZ é pós-doutorando em Literatura Comparada e Identidades Culturais, Doutor em Letras, Mestre em Educação, Pedagogo e colaborador do nosso blog.
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